Resenha - A Herdeira





Livro: A Herdeira
Autora: Kiera Cass
Editora: Selo Seguinte, Cia das Letras
Páginas: 392

Sinopse: 
Vinte anos atrás, America Singer participou da Seleção e conquistou o coração do príncipe Maxon. Agora chegou a vez da princesa Eadlyn, filha do casal. Prestes a conhecer os trinta e cinco pretendentes que irão disputar sua mão numa nova Seleção, ela não tem esperanças de viver um conto de fadas como o de seus pais… Mas assim que a competição começa, ela percebe que encontrar seu príncipe encantado talvez não seja tão impossível quanto parecia. 



Resenha:

“Olhei para o espelho e disse para meu reflexo:
— Você é Eadlyn Schreave. Será a próxima pessoa a governar este país e a primeira garota a fazer isso sozinha. Nenhuma pessoa — prossegui — é tão poderosa quanto você.”


Antes de mais nada: esse texto contém spoiler. Então, se você ainda não leu A Herdeira, sugiro que pare de ler, ou leia por sua conta e risco.
 No livro “A Herdeira”, somos apresentados a Eadlyn Schreave, a filha mais velha de America e Maxon. Ela chegou ao mundo sete minutos antes de Ahren, seu irmão gêmeo, e por isso se tornou a sucessora oficial ao trono de Illéa.
Queria começar falando que algumas surpresas logo nas primeiras páginas. Eadlyn não é muito parecida com America, e não digo isso apenas no aspecto físico. A garota é rígida e bem menos passional que a mãe, agindo muito mais com a razão do que pela emoção. Mas vale ressaltar que nem por isso ela é uma personagem ruim, e é sobre isso que vou falar no decorrer dessa resenha.
Eadlyn foi criada para ser rainha. America e Maxon lhe forneceram todo o conforto da vida de uma princesa ao passo em que lhe preparavam para o cargo que a esperava. Ela não é uma garota normal, ela é a futura rainha e, como tal, deve aprender a governar. Some-se a isso o fato de que Eadlyn é mulher, a primeira mulher a assumir o trono, e isso já faz com que ela precise ter energia redobrada nas suas ações e decisões, pois ela precisa provar para si mesma e para o povo que uma mulher pode sim governar um país sozinha. Achei interessante a maneira em que a Kiera coloca a Eadlyn no livro e acho muito válida essa discussão sobre a posição que a mulher ocupa na sociedade. Acho que esse aspecto poderia ser bem mais desenvolvido. É um tema atual e que vale ser debatido. Eadlyn tem que lidar com muita pressão, e isso acaba se refletindo em sua postura mimada e egocêntrica, alheia aos desejos de outras pessoas e excessivamente preocupada com seu próprio bem-estar.

“— Você parece fechada em certo sentido, desconectada do nosso povo. Sei que passa o tempo todo preocupada com as exigências que terá como rainha, mas já é hora de conhecer a necessidade das outras pessoas.
— E você acha que não faço isso agora?
Será que ela não enxergava o que eu fazia o dia inteiro?
Ela apertou os lábios.
— Não, querida. Não se seu conforto vem antes disso.
Quis gritar com ela, com meu pai. Sim, eu me refugiava em longos banhos de banheira ou com uma bebida durante o jantar. Não era pedir muito diante de tudo o que sacrifiquei.”

Por esses motivos é que Eadlyn, inicialmente, repudia a ideia de fazer uma Seleção. Maxon e America tentam fazer com que a filha faça isso para acalmar os ânimos do povo, uma vez que apenas abolir o sistema de castas não foi o suficiente para trazer paz ao país. Eventualmente, Eadlyn acaba aceitando, mas impõe suas próprias condições e, secretamente, não deseja escolher nenhum dos garotos para governar ao seu lado.
Após escolher os 35 rapazes que participarão da Seleção, Eadlyn precisa aprender a lidar com seu povo.
Até então, a sensação que eu tinha era a de que ela passava a maior parte do temo dentro do castelo, preocupada em se tornar boa rainha e em satisfazer suas necessidades. A Seleção se torna importante no processo de crescimento de Eadlyn. Claro que o romance acaba sendo o mais esperado, principalmente depois de termos lido a história de America e Maxon. Mas, aqui, a coisa é um pouco diferente. A Seleção feita pela princesa funciona mais como uma jornada pessoal de Eadlyn, na qual ela precisa aprender a lidar com o povo, ela precisa sair de sua redoma e perceber que ser rainha não é apenas ficar no palácio dando ordens e tendo uma boa vida. Completamente despreparada para lidar com essa situação, o começo de Eadlyn na Seleção é terrível. Humilhada pelo povo durante o primeiro desfile; altamente dura e insensível nas primeiras eliminações; criticada por Ahren e America por conta de sua postura com os garotos; Eadlyn parece ir de mal a pior, e não tem ideia do que fazer para reverter isso. Ela sente-se arrastada pra toda essa situação, que era algo que ela não queria. Eadlyn parece ser constantemente pressionada, seja pelo cargo que ocupa, pelos próprios pais, pelo irmão gêmeo e, em menos escala, pelos garotos. Talvez America e Maxon não percebam isso, mas só o simples fato de eles serem America e Maxon já é pressão suficiente para a filha. Espera-se que ela seja tão doce quando America, tão firme como Maxon e, ainda por cima, que apaixone-se e viva uma história de amor tão bela quanto foi a dos pais. Tudo isso sem ser criticada e agindo com perfeição.

 “— Desculpe. Esta situação acaba comigo — justifiquei enquanto corria o dedo por uma pedra. — Quer dizer, eu sei por que é uma ideia intrigante: em algum lugar lá fora, meu par perfeito pode estar à minha espera, e por sorte posso ter sorteado o nome dele e me apaixonar loucamente. Mas, depois, sinto que sou um objeto em exposição, que estou sendo julgada mais do que o normal. E quando olho para os garotos, vejo que são pessoas totalmente diferentes do tipo de gente que costumo encontrar, e acho que não gosto disso. Tudo na Seleção me deixa confusa.”

Eadlyn está confusa, e isso é algo que ela não costuma sentir, ou ao menos não deixa transparecer. Ela quer ser vista como uma rainha forte, independente e que não precisa de mais ninguém pra reinar ao seu lado. Por isso, muitas vezes acaba sendo mesquinha, inflexível e dura demais. A forma como a Seleção vai sendo levada por ela complica ainda mais as coisas. Tudo o que Eadlyn faz, mesmo as coisas que ela faz com boas intenções, acaba virando manchete nos jornais da pior forma possível. A imagem da princesa não é das melhores, e ela se dá conta de que isso é reflexo de suas próprias atitudes, da maneira como ela se porta diante das câmeras e em suas aparições. Sempre rígida e distante. Ela começa a se dar conta de que talvez não seja tão amada assim pelo seu povo. Sem contar a desistência de um dos Selecionados, que dirige palavras duras a ela.
Nesse ponto, é importante notar como Ahren é importante para ela. Ele não é apenas um irmão gêmeo, ele parece ser o melhor amigo de Eadlyn e a única pessoa pra quem ela revela seus desejos e preocupações sem a postura presunçosa e arrogante que ela utiliza com outras pessoas, inclusive com seus pais, em alguns momentos. Ahren tem uma aura tranquilizadora e preza pela felicidade da irmã. Apesar de ser muito diferente dela, em personalidade, Ahren a entende e faz isso sem julgá-la. Talvez por isso Eadlyn se sinta bem com ele e aceita suas críticas com mais facilidade do que a de outras pessoas.

“Eu não sabia ao certo se era coisa de gêmeos ou uma ligação exclusiva entre nós dois, mas quase dava para sentir nossas discordâncias fisicamente. Parecia existir um elástico esticado entre nós. (...)
— Continuo do seu lado, Eadlyn. Você, mamãe e Camille são as mulheres mais importantes da minha vida. Então, por favor, entenda que às vezes eu me pergunte se você é feliz.
— Eu sou feliz, Ahren. Sou a princesa. Tenho tudo.
— Acho que você confunde conforto com felicidade.”

Ahren tenta mostrar a Eadlyn que ela não precisa ser tão dura o tempo todo, mas ela parece repetir sempre na mente o seu mantra “eu sou Eadlyn Schreave e ninguém é mais poderoso que eu” como um escudo que ela acha que serve para protegê-la das outras pessoas, mas na verdade ela só tenta proteger a si mesma. Eadlyn não consegue conceber a ideia de que o amor e o poder podem andar lado a lado. Pra ela, os dois não podem coexistir. Então ela mantém a tudo e a todos afastados. Como considera o amor uma fraqueza, Eadlyn quer governar apenas usando sua razão e não precisa de ninguém para ajudá-la.

“Eu seria rainha, e uma rainha podia ser muitas coisas… mas vulnerável não era uma delas. (...) Em segundo lugar, se algum dia eu me casasse, minhas chances de sentir um amor arrebatador e duradouro pela pessoa eram mínimas. O amor servia apenas para destruir nossas defesas, e eu não poderia me dar esse luxo. Eu já dava muito carinho à minha família e sabia que era meu ponto fraco — meu pai e Ahren em particular. Era difícil me imaginar fazendo isso comigo mesma de propósito.(..)

Mas só que as coisas ficam muito complicadas para Eadlyn quando ela percebe que, afinal, a Seleção não precisa ser tão torturante quanto ela achava. Aos poucos, vemos Eadlyn ceder diante de alguns garotos (e sim, rolam alguns beijinhos), não apenas no sentido físico, mas também no sentido emocional. E isso começa a incomodá-la. Ela percebe que há um limite que está sendo ultrapassado, e ela acha que são os garotos que estão fazendo isso, mas não é. É a própria Eadlyn quem permite que alguns rapazes avancem e descubram mais coisas sobre ela. E ela faz isso sem perceber, porque, no fundo, ela precisa desesperadamente de atenção, de afeto e de compreensão. E, porque não, de diversão também.

“Eu odiava a frustração em sua voz. Não queria me importar. Sabia que deixá-lo se aproximar acabaria mal. Não sabia explicar o motivo, mas tinha certeza de que se permitisse a qualquer um desses garotos cruzar um certo limite de intimidade, os resultados seriam desastrosos. Então por que — por quê — eu não os impedia de chegar perto?”

Alguns dos Selecionados conseguem proporcionar tais coisas a ela, fazendo Eadlyn agir como uma garota normal ás vezes. O que ela não entende é que ela é rainha, é poderosa, mas ela é uma garota e que, como tal, também tem desejos, também pode ser divertida e pode ter amigos e, quem sabe, um namorado. Nesse motim, alguns garotos se destacam. Na minha opinião, Kile sai na frente, não por conhecê-la antes de tudo, mas porque se mostrou um bom companheiro e mostrou saber lidar com a personalidade dela. E, cá pra nós, os dois tem uma boa química. Então temos Henri, Hale e Fox também. Cada um deles parece tocar Eadlyn de uma forma diferente. Henri, sempre terno; Hale, sempre disposto a conquistá-la; e Fox, com uma história de vida que poderia ter acabado com ele, mas só o fez mais forte. E não podemos esquecer-nos de Erik, que em teoria não é um dos participantes, já que sua função é ser o intérprete de Henri, mas acaba tendo uns poucos momentos com Eadlyn, e eu não sei o que podemos esperar disso. No fim da lista, tem ainda Ean, um personagem curioso com propostas interessantes para nossa princesa.

A Seleção estava me tornando uma mula!
Por isso o amor era uma ideia terrível: ele enfraquecia as pessoas.
E não havia nenhuma pessoa no mundo tão poderosa quanto eu.”


Então, Eadlyn vai se envolvendo aos poucos com esses garotos, e há momentos bem divertidos entre eles. Momentos em que ela se esquece do caos que está o país, das matérias jornalísticas que insistem em denegrir sua imagem. Mas isso ainda não é suficiente para Eadlyn abrir seu coração. É então que acontecem coisas que põe em cheque o modo de pensar da princesa.
Primeiro, há o acontecimento com Ahren, que foge para casar-se com Camille, sua alma gêmea e herdeira do trono da França. Eadlyn se sente muito abandonada e vulnerável. Mas esse é o momento crucial do livro. Antes de ir, Ahren deixa uma carta para Eadlyn, e são suas palavras que abrem os olhos da garota. Inicialmente ela fica com raiva, é claro, mas Ahren mostra pra ela que ela pode ser várias coisas ao mesmo tempo, e que ela não precisa polarizar o amor e o poder, como se só pudesse existir um dos dois em sua vida. Somado a isso, ainda acontece o trágico ataque cardíaco de America. E é aí que, pela primeira vez, Eadlyn percebe que ela daria a vida por outra pessoa, que ela ama muito a sua mãe. O único momento em que ela não se preocupa em manter seu autocontrole e sua postura poderosa é quando ela vê a mãe na cama, com a vida em risco. Ela se dá conta do quanto Maxon ama America, o quanto é devotado a ela, mas mesmo assim, consegue ser um bom rei, apesar de tudo.
 É preciso que Eadlyn perca, momentaneamente, duas pessoas importantes da sua vida para que se dê conta de que o amor não é uma fraqueza.
E o livro termina com a promessa de que Eadlyn agora poderá abrir seu coração para o amor. Só nos resta esperar o que pode vir com isso.

Bom, essa foi a minha primeira resenha, espero que gostem. Foi muito bom rever personagens tão queridos, agora sob os olhos de outra pessoa. America e Maxon amadureceram tanto, mas continuam o mesmo casal pelo qual torcemos. Leger e Lucy (Madame Lucy) se tornaram um belo casal, e podemos ver em poucos momentos, como eles se entendem e se amam, apesar das dificuldades. Senti falta de Marlee, mas podemos vê-la principalmente através de Kile e Josie, seus filhos.
Particularmente, eu gostei de A Herdeira, mas acho que poderia ser um livro melhor. Acho a série da Kiera uma boa distração, mas não consigo amar como a maioria dos leitores amam. Não vi algo que o diferenciasse de outros livros do gênero, aliás, nem sei se podemos chamar essa série de distopia. Sim, há uma sociedade diferente da nossa, dividida em castas e tudo mais, mas o foco do livro acaba sendo mesmo o romance.
Tem outras coisas que me incomodaram, mas prefiro esperar pelo próximo livro para saber o desfecho da série.

2 comentários:

  1. Estou com esse livro na estante há meses e nunca li porque não tenho os outros da série :(

    Parabéns pelo blog. Tá tudo lindo!!
    Beijos :-*

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah sim, mas eu recomendo essa série se você gosta de romances, porque a história é bem focada nisso.
      Quando puder leia, é bem legal.

      E obrigada <3
      Beijos

      Excluir